quinta-feira, abril 28, 2011

Retratos de uma "Santa Cruz".

Hoje pela manhã acordei pensativa. Era uma espécie de nostalgia. Assim sendo, pensava copiosamente em uma realidade que me acometera durante as tardes passadas e que me traz a este audacioso momento de reflexão. Por enquanto  ando meio sem rumo.  As manhãs na faculdade já haviam me alertado do que poderia me acometer fora da academia. Violência constante, ignorância, miséria, exclusão, discriminação, preconceitos, desrespeito, humilhação, carência afetiva, analfabetismo funcional, falta de preparo do educador -  também vítima deste sistema - e omissão do poder público para com estas crianças. E essas minhas crianças, não tão minhas, distanciadas socialmente de mim me mostram claramente falta de perspectivas.  Dizem-me com os olhos que são seres carentes e me acenam a um passo da marginalidade social. Por favor, deixemos de lado as ideologias predominantes que através da abominável (por mim) televisão e outros meios massificadores nos distorcem a realidade e nos dizem   que essas crianças são culpadas. Sim, tudo é exposto de forma muito  sutil e velada. Eu sei que no futuro próximo essas crianças então adultas serão julgadas por preguiçosas e que submissão  ao mundo das drogas e à violência são apenas por falta de vontade e "vergonha na cara". Não gosto de discutir este assunto com leigos. Mas aqui posso me abrir. É um assunto muito delicado pois envolve toda uma ideologia formada pela sociedade burguesa que legitima os interesses dominantes.  É,  infelizmente tudo isto é reflexo do nosso querido capitalismo. Capitalismo este que legitima a miséria. Podem falar que eu sou insistente nesta questão.  Mas é por que as pessoas também insistem na idéia de "sistema perfeito onde todos podem ter o que querem".  Poucos sabem ou admitem que o defeito do capitalismo está na sua própria essência. Vamos fugir do senso comum e parar de achar que o capitalismo é questão de política, gestão e mau direcionamento. Não! O capitalismo é baseado na desigualdade social e não há como associar humanização com o lucro. É preciso deixar claro que a partir do momento em que há uma classe extremamente rica haverá o proletariado para promover esta riqueza. Por que voltei a este assunto? Porque acompanhei de perto o reflexo deste sistema. Acompanhei  a realidade das crianças de " Santa Cruz" e me angustiei. Santa Cruz é um bairro periférico localizado aqui em Salvador. Iniciei o meu estágio eufórica. A esta altura do campeonato todos meus amigos já estavam sabendo da minha nova experiência e ansiedade em trabalhar com crianças carentes. Nos primeiros dias de contato com a escola busquei incessantemente alternativas que não vinham a calhar por falta de direcionamento da docente e também por inexperiência minha. Me surpreendi com uma sensação estranha, de impotência. Admito que eu ainda não sabia como modificar  algo que já estava errado há tanto tempo. E eu era apenas mais uma que estava presa as amarras do conhecimento. Falta de infra-estrutura , falta de lazer; a escolinha não dispusera de espaço físico adequado e isso influenciava no desempenho das crianças que precisavam correr, brincar e serem efetivamente crianças no espaço escolar. Tudo isto, aliado a uma realidade dura, vivenciada por estas crianças, me faz enxergar um futuro triste. O meu menino, hoje sem pai amanhã será ausente ao seu filho e a minha menina tão nova já com um filho em seu ventre será a mãe inconsciente.  E é por isso que precisamos repensar tudo isto.  A partir do momento que internalizarmos às necessidades de mudanças iremos permitir a efetivação delas. Vamos buscar  alternativas, vamos pensar em uma educação para além do capital. Enquanto isso, dói saber da realidade e futuro dessas minhas crianças. Não tão minhas.

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